quinta-feira, 27 de abril de 2017

Palestra de S. Estevão à vestal de Roissy, segundo Dionísius
Ele queria-te diferente e incondicional. De outro modo nunca serias sua. Tranquilo e estranhamente tutelar, explicou longamente ao q vinha. Expôs o assunto com o rigor de um professor q explicasse uma matéria nova, inesperadamente interessante. E esclareceu minuciosamente tudo.
Tu ouvias, absorta e sem palavras. Olhavas fascinada a magia das suas mãos. Aquilo fazia-te voar o pensamento em direcções antagónicas e confusas. Estavas perplexa ante o enfoque bizarro e simples de tanta erudição. De vez em qd perguntavas qualquer coisa breve. Apenas monossílabos, quase surdos. E ele, sorrindo muito tranquilo, ia respondendo claramente.
Tudo se tornava claro e belo aos olhos da simplicidade. Estranhavas o planeta que apenas entrevias. Mas começavas, devagar, a entender o belo, - violentamente belo e assustador - princípio de um novo tempo. Toda a cidade iria mudar. E tu ainda mais.
Pedia-te apenas uma folha. Em branco. Nada mais. Parecia fácil. Contudo, as coisas deveriam processar-se num rigor litúrgico de acordo c os novos dias longos, lânguidos e estendidos. Percebias isso. Nunca tinhas pensado, mas o preceito era mandatório e evidente. As cores, os cheiros, os modos, a paisagem, os silêncios. As roupas, a luz, os óleos, os fumos, os vinhos e sabores.
O erotismo é sempre o percurso mais longo entre dois pontos. Sentias já o perpassar dos dedos pela nuca, pela sombra, pelas fimbrias vibráteis do teu mais vibrante e secreto feminino. Sugestão pura, claro. Nada do q foras seria prometido; nunca poderias saber o improviso, pois as flores do poeta voavam no por do sol com a graça incerta doutro desejo. Carregado talvez das folhas de um outono sabedor. Talvez perverso. Talvez puro, essencial e desprovido. Que responder?
A natureza dizia-te q sim. O medo dizia-te q não. O desejo dizia-te mulher. A cidade gritava-te vergonha. O tempo fazia-se urgente. A volúpia sussurrava-te já. A voz fugia-te da boca. O insulto travava-se na garganta. O susto impedia-te de pensar. O corpo era apenas totalmente corpo. Como nunca pensaras senti-lo. Tremias. Tão mulher.
Ele sorriu pausadamente e beijou-te longamente a mão. O maldito carrossel de sentimentos recomeçava. Ardias em febre e contudo suavas, sem saber porquê. Um fundo silêncio fez-se.
Ambos ficaram em silêncio; e um pássaro deu um grito violento no início da noite. E um vulcão começou a ferver de lava no centro de ti, que não calaste. Subitamente, quase ao mesmo tempo, um madeiro rebolou do lume e caiu, saltando do lar incandescente. E transformou-se em cisne. Um belíssimo cisne negro. Era o sinal. Afinal os milagres existiam.
Tudo o q sentias em ti provava a essência superior do gesto de existir. Não era agora Ele - que, de resto, já terminara e parecia descansar, olhando num qqr vago infinito, completamente ausente. Ele dera-te tudo. Todos os dados, todos os códigos, todas as palavras e segredos. E partiu.
Não. Agora eras tu. Apenas tu quem tinha de decidir.
Arrepiaste-te no frio q começava a tombar. Alta montanha. Outono da vida. Idade de urgências últimas e decisões finais. Em q já não há o tempo todo para demorar o tempo todo a decidir do tempo. E tu prometeste pensar seriamente no assunto.
Na manhã seguinte compraste mil folhas brancas de papel bíblia; embrulhaste em seda do jardim tecida a maresia e lágrimas de fada. Ataste com cordas agrestes de navio e lacraste com mel perfumado de medronho colhido na madrugada.
E enviaste-lhe. Talvez feliz. Era o princípio de um fim apaixonante, bizarramente adivinhado, mas seguramente belo. Tinhas a certeza. E de novo tremias de temor mas outramente júbilo.
Assim juravas.

A cidade toda haveria de mudar. Raios. A começar por ti.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Filhos da madrugada



Nascido no Ribatejo acompanhei meu pai nas andanças de professor. Quando tinha os meus 4 anos vim para Lisboa bairro de S Bento, onde ele fora colocado numa Escola. Ali cresci. Comprei a primeira viola e fui ao Zip Zip em 69. Depois foi crescer na raiva e na vida, encontrar companheiros, fazer teatro, cantar por aí fora, descobrir mais gente que pensava como eu, jovens e contra a Guerra Colonial.
Fiz nessa altura teatro do reviralho no TEC, com o Carlos Avilez. Era também o tempo das “sessões de baladas”, nome inocente com que já não conseguíamos enganar ninguém e que a Pide/DGS vigiava escrutinada e minuciosamente. Às vezes acabava mal.
Ia com o Zeca, o Samuel, o Pedro Lobo Antunes, o AP Braga; … ia com o Rui Mingas, com o Macedo, o Zé Jorge, o Denis Cintra, enfim os que podiam. Dizia-se poesia, cantava-se pouco e falava-se mais. Era um tipo de convívio de conjurados, uma espécie de catacumbas romanas onde se respirava o desejo imenso de Democracia, fim da guerra colonial, eleições livres, Liberdade.
E veio depois o esperado e suspirado 25 de Abril, o mais lindo episódio de uma vida, a alegria fez-se paixão e sair era importante. Era eu Oficial de Marinha. Tinha acabado o curso e por lá andava. Ao chegar a Santos nao se podia passar. Tive de ir a pé até à doca da Marinha. Os chaimites ao longo da Ribeira das Naus. Eu sem ter certezas de nada. Fardado. Bom. Desconhecidos davam-me abraços, ao passar. Eu, devagar, começava a perceber que algo de tremendamente marcante estava a mudar este país. Com medo que fosse golpe do Kaulza. Mas não era. Seria gente do Spinola. Tensao enorme. Passei por todo o nucleo onde as coisas se decidiam. Indescritível.
Fiquei fechado na Escola Naval que, pela tarde de 25, aderiu ao MFA. Celebrámos ainda aquartelados. Fez-se festa abriu-se champagne. Dia seguinte houve ordem do Comando e saimos para nossas casas; fomos cheirar a Liberdade.
Depois, as cantigas. Combinávamos na Era Nova, na Avenida de D Carlos, em Lisboa, que era a sede da Cooperativa. Edifício ocupado, em tempos de revolução; tempos adiados de renda e provisórios na definição, todos sabiam. Um dia era uma situação que teria o seu fim.
Ajustavam-se então os sítios, os percursos, os carros, as caminhadas, as horas.
Combinávamos quem ia com quem, onde, quem ia de boleia, quem eram os contactos no local e se e quanto nos ajudariam na gasolina. Quantas vezes íamos, sem saber sequer se nos pagavam os gastos, juntando os tostões para encher o depósito.
Normalmente, a Irene – supostamente responsável pelo secretariado, se tal coisa se podia dizer do que fazia…- baralhava tudo, pois o seu conhecimento da Geografia portuguesa era diminuto. Uma vez, um coro esperado em Vendas Novas foi parar a Odemira. Era tudo muito divertido. Para Todos nós era uma forma de descobrir finalmente, o verdadeiro Portugal.
Na viagem parávamos para endireitar as costas, vigiar a carga, ver se o pneu já tinha rebentado, por água no radiador. Digo isto, que me lembrei agora, porque tive, de facto, um pneu com um perigosíssimo aneurisma de estimação, que andou centenas de quilómetros no meu GS amarelo, até que o Chico Fanhais me proibir de andar com aquilo. Curiosamente, não por questões de segurança, mas porque queria andar mais depressa. Adiante.
Chegar para o jantar era sempre uma festa. Os amigos radicados no local, gente distante dos centros, activistas de combate local, malta insistente no convite, ficava aliviada. Tínhamos, realmente, chegado. O Zeca já chegou, avisavam-se uns aos outros. Era um alívio.
Éramos normalmente anunciados - com a presença do Zeca e outros. Era este sempre o cartel.
Eu, claro, era um dos outros. A teoria dos vade mecums, estão a ver. Os vade mecuns éramos nós, os outros. Os badamecos, em moderna corruptela, nada mais que isso. Cheios de importância por estarmos ali, acamaradando com o Zeca ou o Adriano.
Ou por estarmos ali, simplesmente solidários, e fazermos parte de um grupo de gente que se estimava. Importantes no espaço e no momento, até por sermos sérios no lado de dentro de tudo o que fazíamos e acreditávamos. E ajudávamo-nos uns aos outros.
- Quem trouxe um adufe?
- Empresta aí o teu cavaquinho…
O Zeca não gostava deste modo de anunciar a festa, por desrespeito aos colegas; mas, a bem dizer, nem nós nos importávamos, nem era corrigível. Por toda a parte, escrevia-se assim. Éramos os outros.
Toquei quilómetros de chula da Povoa com o Zeca, chiça. Lembram-se? Começava assim:

Em Janeiro bebo o vinho,
em Fevereiro como o pão,
nem que chovam picaretas,
hás-de cair rei Milhão.

Éramos muitos. O Zeca, quando aparecia o pessoal todo, chamava-nos o bacalhau com todos.
Por vezes até vinha o Sérgio, já era uma figura muito conhecida. Mas lembro toda a gente. Lembro de um tal Aristides, quase sempre de sandálias; o exímio Zé Luís Iglésias, que, mais tarde, vim a encontrar em Nova Iorque, onde vive; o Chico Fanhais, de voz eclesiástica e timbre inconfundível; o nosso eterno Adriano, que tão breve se tornou; o Fausto, um tanto reservado e sempre exigente nos arranjos; o bizarro Fernando Laranjeira, que um dia se meteu num táxi e disse tranquilamente “-Paris, se faz favor!”
O Mário Viegas, por vezes, vinha e dizia um poema maluco, coisas que só ele descobria. Ou o Zé Fanha, que os escrevia com sentimento e dizia como ninguém. Aparecia o Paulo Vaz de Carvalho, que tocava com o Adriano e encantava-nos – onde raio tinha ele descoberto aquele gajo? O tipo tocava para burro.
Havia os Salomés todos, cinco irmãos do Redondo, uma festa à parte, alentejana, às vezes lá vinha o Grupo todo, onde o Janita requintava. Vinham os gémeos da Era Nova, o Samuel e o Henrique, grandes tocadores de trancanholas. O Carlos Moniz, sempre sorridente. O Júlio Pereira, caramba, o tipo tocava daquilo tudo como só ele. Do norte vinham o Tino Flores, esquerdista de fogo, e o Manel Freire, com aquele ar de bonzão que sempre teve, carregando a Pedra Filosofal, que todos entoávamos. E, por vezes aparecia, como se habitasse outro planeta, o António Macedo; canta, canta, amigo, canta. O Pintinhas trazia um alforge com adufes, era uma alegria. O Cília, era um histórico, aparecia pouco, sempre reservado e o tutelar Zé Mário, sempre muito sério, não apreciava muito aquelas confusões. O GAC era uma festa de alegria, mas só vinha se fosse a UDP a mandar na festa... O Serginho, o Mestre, claro, grande músico, fiel comunista sempre, esse contava anedotas e pragas de Olhão nos intervalos…
Todos tocávamos de tudo um pouco – guitarras, percussões, coros. Vivia ainda o MFA. Era a festa da Liberdade. A descoberta da Democracia.
Como nunca fiz questão de separar as águas, por vezes, tocava também com gente da Cantar Abril. O José Jorge Letria, o Barata Moura, o Samuel, o Tordo; o genial Ary, com quem dava abraços de tremer a terra e dar conta dos costados a qualquer um.
Era isto o espírito de Abril.
Depois separámo-nos, cada um foi à sua vida, com projecto próprio. Ou não.
Muitos partiram mesmo; outros foram vítimas das mil mortes que há na vida.
Eu comecei a gravar regularmente e a fazer Concertos por esse país fora. Sempre falei imenso entre canções, das intenções que presidem a cada composição, o caso especifico que determinou aquele trabalho, a história que lhe está associada. Um chato. Talvez porque fui professor numa primeira vida. E só muito a medo larguei uma situação confortável - embora para mim, insustentável – de ordenado certo e prestigiante doutoria efectiva, num velho Liceu de Lisboa. Minha mãe olhou-me cautelosa e disse apenas: -“Vê lá, filho…”
Mas foi. Escolhi aprofundar a música com mais rigor; e as palavras com mais merecimento.
Mas lembro com a memória mais clara de mim mesmo, benjamim nesse bando de alegria e consciência, como era bom ser ainda criança e acreditar tanto no Futuro.
Subíamos ao palco com a alegria do combate. Combatíamos pelo presente, nunca suficientemente socialista; pelas ameaças da reacção, nunca suficientemente controlada e pela continuidade do espírito de Abril, nunca demasiado revolucionário. Temíamos o regresso da censura, do país velho, cinzento, triste e salazarento onde havíamos crescido.
Continuava a ser preciso exorcizar o medo.
O medo se calhar, de admitir como era breve tanto acreditar. O medo de admitir que tantos na sombra, viviam para urdir esquemas sombrios de poder, cupidez e ganância. O Governo, a Banca, as Empresas do Estado, as intervencionadas… Viu-se depois.
E de derrapagem em buraco. De pequena burla a grande fraude, hoje chegámos a isto.
De tantos socialismos, sociais socialismos, centrais socialismos, democrático socialismos, e seja lá como se chame a tudo o que passámos e vivemos. De todas as glórias e angústias e passados. De todas as benesses e enfados. De todos os milhões da CEE. De todas as obras faraónicas. Ao fim de todos os enganos e desmandos de quem nos governou. Ao fim de um cansaço imenso de já não acreditar em nada.
Chegámos ao estado de podridão de tudo o que nos rodeia, mesmo da lendária deusa Europa - que era uma diva loira - hoje podre de feia, chupista e interesseira. E ameaçadoramente exigente, como uma amante passada do prazo, chata, em menopausa financeira, de casaco apertado no peito, mal disposta e falando uma língua difícil.
Arbeit macht Frei, outra vez; só que doutra maneira.
Hoje, estamos aqui, companheiros. Entre o sonho de ternura que nos roubam e o preito de justiça que nos arrancam. Chamam-nos lixo.
Entre a reforma aos 70 anos, ou lá quando decidirem, e as outras mortes de processamento benigno, bondosamente cívica, urbanamente aceitável - compromissos menores de um viver poucamente ambicioso. Hoje aqui estamos; encabulados, estupefactos, roubados e enfiados na desilusão.
Viver aqui e agora, podia ser bem mais que isto que nos dão. Digo eu.
E olho as velhas guitarras que fizeram a revolução neste país; que ainda estão ali, ao alto do armário. Enquanto o peito cava, renascente, uma alma indigna e amarga.
Um sentido de futuro melhor. Onde tudo saiba acontecer de novo, se necessário for.
Em que do lixo que nos chamam nos tornemos gente, de novo, aos olhos do porvir.
E só então sim seremos filhos da madrugada. Merecidamente.
Não daquela, ideal e nobre, eterna, que correspondeu à utopia.
Mas outra, muito urgente também, que um dia rebentará de novo pelas esquinas da cidade.

domingo, 9 de abril de 2017

La Lys

Não faço uma ideia onde seja, nem que tamanho tenha o raio da terra.
Será sempre um nome, uma memória dividida, no seu sabor para mim.
Criança apenas, todos os dias nove de Abril, meu pai tinha a antipática rotina de me levar ao cemitério da aldeia, precisamente ao talhão dos combatentes da Grande Guerra. Em memória de meu avô.
E eu, contrariado, lá ia. Pela mão. Vestindo o meu fatinho de veludo azul.
Pequenino e tropeçando. Olhando de lado para aqueles mortos todos.
Um pesadelo garantido para meses a fio.
Não achava piada nenhuma àquilo, sinceramente. Tinha de se ter um ar sério.
Penteavam-me o cabelo de uma forma estúpida e o fato tinha costuras que arranhavam.
Logicamente. Aquilo era um castigo.
Mesmo que eu nada tivesse feito de errado, a cada dia nove de Abril, era sabido – visita cultural ao cemitério!
Restará acrescentar que se tratava de uma espécie de package de férias de Páscoa. Coisa que só viria a ser descoberta muito mais tarde, quando as pessoas arranjaram dinheiro e vocação para viajar.
Na realidade o meu pai fazia anos a dez, a sua mãe – e minha avó Emília – a onze. Porém, ao que parece, a data maior associada a meu avô não era - nunca seria - a data de seu aniversário, mas sim o dia nove de Abril. Data da Batalha de La Lys.
Dia em que – ao que se descobriria mais tarde, com grande orgulho da família – ele invadira, sozinho, com inaudita coragem, o poderoso exército alemão!

Eu explico.
Pobres homens de campo e gente humilde, mandámos para a guerra – convencidos que o velho prestígio guerreiro e conquistador lusitano de outrora, só por si, sobraria para amedrontar quaisquer inimigos – uns milhares de homens impreparados, mal armados, recrutados à pressa, meio esparvoados e sem saber ao que iam. Uma espingarda, um capacete e um cobertor …e ala, vamos para a Guerra! A pé.
Ora a guerra que lhes tinham contado era, com efeito, uma coisa distante. Uma história romanesca. Uma cruzada pelo bem e pela paz, a que urgia aderir, ao que parece, para mais completa glória da Nação.
Cheios de Afonsos Henriques e Aljubarrotas na memória, lá foram.
Aquilo eram favas contadas. Assim que chegassem lá os portugueses, o resto do pessoal acobardava-se todo e pronto. Fugiam. Estava resolvido.
Guerra?! Aquilo era coisa de jornais, para quem lesse tal coisa.
Nada de grave. Romance. Uma autêntica passeata. Conversa de jornais e da rádio. Se já houvesse telefonia, porque, a bem dizer, a TSF convencional ainda nem balbuciava os primeiros sinais!...
Havia, isso sim, emissões em morse, que eram captadas e transmitidas aos centros militares por pessoal das Transmissões, e o caos no sector era geral.
Telexes descreviam, desse modo lento e precário, o evoluir das coisas.
Quantas vezes interceptados pela contra-informação inimiga e alterados para quebrar o moral do opositor, num mar de dúvidas e mentiras, em que todos os exércitos navegavam, sem solução alternativa, nem certezas.
Alias, os próprios generais se apercebiam de que ganharia a Guerra nessa altura quem ganhasse a guerra das transmissões. A telegrafia sem fios dava os seus primeiros passos, ainda com vários sistemas, todos eles bem incompletos, apesar de Marconi já se revelar o melhor e mais activo a vender o seu invento e a lutar pela sua implementação.
Era necessário activar as toscas maquinetas receptoras, com a chamada luminária ou tríodo TM. E para transmitir era necessário, ou estar em alcance visual e fazer comunicação semafórica, ou passar fio até à zona desejada, para que o telégrafo pudesse trabalhar. E tornavam-se necessários, obviamente, postes suportadores pelo caminho, entre os pontos desejados para comunicação das notícias.
Postes cavados no terreno minado. E tudo ainda transmitido à manivelada.
Deste modo, do que chegava, do que se recebia e da sua controversa utilidade, sobrava uma imensa desconfiança de que o inimigo já tivesse ouvido a conversa toda; ou que o morse do parceiro fosse mais rápido que o do nosso operador.
Ou, enfim, que os carregadores de postes fizessem uma grave de zelo.
Era, com efeito, difícil a colocação – ainda por cima sob fogo inimigo – dos paus pesadíssimos que haviam de endireitar-se enfiados em covas imensas, cavadas a braço mal alimentado, por homens com uma coragem sem espingarda, apenas armados de cordas e fios e pás de valar.
Tudo isto, enquanto, supostamente, os companheiros os protegiam da sua invulgarmente braçal e pouco lembrada maneira de participar na guerra. Mas tão importante e fulcral.
 Pobre guerra, com efeito, a destes moços; heróis – sem lhes reconhecerem qualquer heroísmo – de picaretas e pás na mão, num dia a dia estúpido, esgotante e perigosamente igual.

Conclua-se já agora, que a cada dia se avançava um pouco na descoberta de novos processos de tornar todo o processo de transmissão mais veloz e aperfeiçoado. Mas só no fim do conflito a TSF, pela primeira vez convertida em radiotelefonia, transmitiria a voz humana, num milagre sonhado há muito tempo por Marconi.
Demasiado tarde para estes heróis do código morse e do pau de fio às costas.
Sabia-se assim, mais ou menos, o que a informação permitia que se soubesse – que era pouco. E compreendia-se de tudo aquilo ainda menos que pouco, para não dizer nada.

Ora bem. A função de meu avô era montar fio.
Pobre herói de braço forte e corpulento, ribatejano rotundo e avantajado. O pessoal da sua especialidade andava em grupo, mas a fome com que os portugueses andavam, fazia com que os percursos nem sempre fosse os mais directos.
E lá haveria uma quinta que ficava sem galinhas, a outra sem uns ovos, outra ainda sem alguma fruta...
Se o inimigo atacava, havia que recolher. De novo se fariam ao campo, mais tarde, na esperança de não terem maus encontros. Outra vez cavar buracos e passar fio. Outra vez a fome, o abandono, o frio, a miséria, uma desorganização total.
Para onde é agora? Por onde? E como chegamos lá?
A cadeia de comando caótica, por sua vez, distante, dispersa, raras vezes concordante, debaixo de fogo. Também eles sem saber… Gente de várias nações sem se entender. Enfim, facilmente se imagina e se calcula a confusão…

Acontece que o meu avô era um homem destemido, desbragado, positivo. Com um copito era capaz de tudo; até de trepar pau nas fuças do inimigo.
E um belo dia, ao que parece, o nevoeiro fez-lhe uma partida.
Ficou lá no alto do pau, sózinho e começou a chamar pelos camaradas mas em vão. O pessoal tinha todo largado o material e fugido, sabe-se lá para onde.
Que se passaria?- pensou ele, já aflito.
Entretanto, um barulho cavo e surdo se ouvia cada vez mais perto. O exército inimigo avançava, passo a passo, destruidor e temível.
E quando pensou em descer do pau, era demasiado tarde. Eles aí estavam!
O meu avô ficou transido e rezou à virgem, aos santos todos. Encomendou a alma sete vezes a Deus e preparou-se para levar um tiro, talvez muitos, e cair como um tordo apanhado em galho de árvore.
Mas o nevoeiro denso da velha Flandres, dessa vez, ia ser seu amigo.
Ninguém o viu!
O exército alemão passou, passou, passou, demorou horas a passar… e o herói lá se mantinha suspenso. Com o coração a bater mais que as máquinas de guerra cá em baixo, o peito num estertor, as pernas já sem sentir nada, as mãos em desespero agarradas ao pau de fio, o corpo dormente do arnês. O frio e o nevoeiro a enregelarem os ossos e a alma. A espera da morte a qualquer momento. Na vaga incerteza de uma improvável sorte que o salvasse.
Não os via. A neblina era espessa como leite. Pressentia-os.
Pareciam falar uma lingua estranhíssima, arranhada e gutural. E soavam mais jovens que supunha. Rapazitos seriam, gritando muito uns com os outros. Infantaria. Um barulho ensurdecedor de granadas explodindo e de gritos por todo o lado.
Por um momento, pararam junto ao poste. Discutiam-lhe, decerto, a sorte. Mas os fios largados pelo chão denunciavam que não tinha nunca chegado a ser útil e tornavam-no manifestamente inofensivo. Era inútil perder tempo a derrubar aquilo pois não servia para nada ao inimigo. Era apenas um pau levantado no chão. À cautela atiraram uma rajada para o alto oculto no densíssimo nevoeiro.
O pobre Manel aí, confessemos, teve sorte. Nada lhe acertou. As balas rasaram-lhe o corpo, mais nada. E mordeu-se todo com medo de morrer. Mas para sua muita sorte os inimigos desistiram. Todo o material largado no chão – fio, pás, enxadas…- indicava a fuga. E havia que avançar, avançar sempre.
- Weiter gehen!
Isso mesmo. Adiante.
E lá seguiram.

Depois vieram os carros, e o chão tremia debaixo dos seus pés. Perdão. O chão tremia; mas ele já só mal o podia sentir, agarrado que continuava ao grosso madeiro, que vibrava a cada rodado que passava. Porque os pés, suspensos e frios, já tinham congelado na espera.
Demoraram uma hora a passar. Ou mais. Seriam duas. Ele nunca soube.
Depois, devagar, os gritos e estampidos foram-se perdendo na distância.
Seria possível? Depois de deixar passsar uma margem de segurança sem ouvir mais nada, o seu coração ouvia-se mais alto que o silêncio.
O nevoeiro não levantava. A cinco metros já ninguém via nada. Só os postes tinham dez ou mais de altura. Ele próprio não via o chão.
Deu ainda mais uma e outra margem de segurança. A tremer todo, lá se arriscou a descer. Devagar, espreitando sempre.
O exército alemão passara.
Havia no ar um cheiro imenso a pólvora e a morte.
Estava completamente só.
Exausto. Borrado de medo. Enregelado. Faminto. A tremer. Mas vivo.

Acontece que na aldeia nada se sabia. E se, de vez em quando, aparecia uma carta E, normalmente, para desgraça da família, eram sempre más notícias. Assim, calhou, em certo dia, a minha avó receber do Ministério do Exército – ou da Guerra, como então se chamava – a sibilina e curva notícia.
O seu marido fora dado como desaparecido em combate. Era assim que se dizia a morte.
O choque foi brutal. Chorou-se a desgraça e receou-se pela vida futura. O pai e o sustento iam faltar. Como sobreviver, pobre mulher, viúva, e com dois filhos para sustentar?
Pos-se luto e carpiram-se noites de uma tristeza profunda. Uma mágoa, assim, sem ter corpo para funeral é uma mágoa especialmente funda, estúpida e perplexa. Não se percebe como terminou tudo e, no entanto, tudo terminou. Lá longe, sem se saber como, nem porquê.
Aliás há um eufemismo imenso na terminologia militar, quando trata da morte de seus filhos. Se não há corpo, o que se regista estatisticamente é um desaparecimento. Não conta como morte. É uma sensação esquisita.
- Que é feito de teu pai? …De teu irmão? De teu filho? Morreu?
- Não sei. Desapareceu!
Estranha e violenta resposta, a que teriam de ensinar aos filhos.
Junto de um amigo sargento, cujo conhecia um capitão em Lisboa, toda a família tentou indagar novas do pobre Manuel Miguel. Nada. Tinha sido apanhado num ataque. Esmagado pela frente inimiga. Desaparecido.
Mas afinal não eram todos eles “desaparecidos em combate” na sua maioria? Aquilo foi, relembre-se, a maior chacina humana sofrida pelo exército português depois de Alcácer Quibir! Uma razia total. Um país inteiro de luto.

A mãe Anita nunca desistiu. Nunca quis acreditar.
Prometeu a Nossa Senhora ir todos os dias à Igreja Velha, nem que fosse entrar e sair, se o seu filho voltasse. E só Deus sabia como arriscava, pois o seu marido João Ralhão não era homem para brincadeiras e tanpouco dado a assuntos clericais.
Enganou-o toda a vida com uma caixa de fósforos, sempre novinha, que trazia escondida, num bolso oculto duma das muitas saias que então se usavam.
Era o pretexto, se ele desse conta de sua falta. E ele sabia.
- Onde andaste, mulher dum raio? - Perguntava ele, falsamente furibundo.
- Olha, homem, fui comprar fósforos, que já não tinha… – respondia ela, prontamente. Era mentira; e ele sabia.
Morreram os dois com uma semana de intervalo.
O coração do velho João não aguentou mais que esse tempo de saudades e morreu de fastio pelo Mundo e amor de morte pela sua mulher.
História bonita e verdadeira de meu sangue, acontecida bem antes de mim.

Mas voltemos à história de seu filho, evoluindo, sem dicionário, em pátria alheia.
Passava o tempo. O bom do Manuel, sem falar a língua e com medo dos ocupantes, arrastou-se semanas pela França ocupada, numa vida furtiva e vadia, sem saber onde estava, nem ver parceiros.
Voltar para trás, nem pensar. Ia dar de caras com os alemães. Era a morte certa.
Aos poucos, vindos daqui e dali, alguns outros colegas, todos famintos e esfarrapados, começaram a juntar-se e, em dois meses, um grupo de insólitos soldados, cuja roupa rota e suja apenas muito longinquamente se assemelhava já a um uniforme militar, constituía um triste espectáculo de pobreza e mendicidade.
Alguns franceses, embora muito a medo, iam sustentando o pobre grupo de maltrapilhos. Por vezes trabalhavam pela comida em fazendas e quintas. Os olhos encovados e o aspecto denunciavam-nos a qualquer olhar mais atento.
Foi isso que aconteceu, largos meses depois, quando alguém foi avisar representantes do exército português de que andariam homens extraviados em tal parte.
Regressaram então aos respectivos Batalhões, campos de resistência que eram uma espécie de babilónia de línguas e culturas. Os portugueses que haviam sobrado de tamanha má sorte eram, apesar de tudo, os mais afortunados, de entre tantos milhares de pobres compatriotas que morreram, sem saber bem por que causa combatiam…
Eram sobreviventes. Estropiados, encolhidos, desorientados, doentes e feridos no corpo e na alma e que, finalmente, iam sendo, aos poucos, repatriados para casa.
O fracasso na consciência, a fome no corpo, a vergonha na derrota e a morte na memória.
….
Quando chegou à terra, o meu avô estava magro como um cão vadio.
Era, por outro lado, um morto vivo, com tudo o que a desagradável sensação lhe podia trazer.
- Oh Manel! Oh Homem! Mas então afinal tu não tinhas morrido?! – Diziam.
Mas a alegria de voltar foi tamanha que o morto vivo em breve recuperou, com um tratamento intensivo à base de matanças de porco sucessivas, celebrações de vida, enchidos de boa curtimenta, tinto de Alcorochel, sopas de fressura, toucinhas de colorau e avantajadas migas.
O meu querido avô – Manuel Miguel Chora.
De quem herdei, ao que parece, as mãos, o vigor e a rotundidade. …Promovido a primeiro-cabo, por serviços heróicos ao Exército Português na Grande Guerra de 1914-18!...

O tal herói que, um dia – sem querer, nem saber bem como... – “Invadiu” sozinho o exército inimigo, na célebre Batalha de La Lys, num dia 9 de Abril de que nunca perderei memória! E por ser tudo verdade aqui se passa, embora tardio, o competente Auto.

Seu neto, a bem da Nação,

PB

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Carta aberta a um assassino da Alma Portuguesa


Há penas previstas para as ofensas corporais. Para os homicídios. Para o roubo; para o prejuízo ou dano psicológico. Para quase tudo o que a mente maldosa do homem vai inventando e judiando aos outros. Torna-se contudo, bem mais difícil definir as coisas e instruir processo para os danos da alma.
Ora Vossência assassinou precisamente a alma da Língua Portuguesa. Inocente e limpa. Pura e linda. Planetária e expressiva. Um dos valores que da lei da morte nos ia libertando, pois para lá dela nos continua.
Vossência criou um aborto putativamente correctivo. Mudou uma língua das mais belas e espalhadas do planeta colocando-a num supermercado de ventoinhas e tornou-a uma lotaria sem sentido.
Vossência não para para pensar. (Se não perceber o que eu escrevi, pergunte a si mesmo se tal redacção sem acento faz algum sentido).
Vossência avança e esgrime que o acordo é um benefício por não sei quê, tem vantagens que ninguém vê, urgência por vá-se lá saber. Que moderniza coisas que o não pediram, se impunha desde não sei quando, unifica países que não sei se, esclarece dúvidas que não existiam e resolve questões que não sei como.
Mentira. Oportunismo parvo e espúrio. Pedantismo filólogo de terceira escolha, gosto zero, sensibilidade casteleja e distante, razão desarrazoada e sem sentido, loucura arsenalista e arrasadora.
Vossência assassinou a língua portuguesa. Vossência é, portantissimamente, um criminoso.
Vossência - e o grupo de bestas que o rodeia - flecharam mortalmente o peito puro e terno da Ala dos Namorados; os que pela Língua dão a cara, o peito e a paixão. Coisa que Vossência nunca entenderá. Mas lutamos com armas desiguais, pois Vossência tem os exércitos do poder nesta justa, - onde, de justa, nossa causa é bem mais justa.
Continue a espetar inocentes espectadores, continue a fazer recessões nas recepções; e imponha redassões nas redacções. Que tal ato o ate no acto de malfazer e espalhar o desgosto e impropério. Que lhe perdoem as crianças de hoje e do futuro tudo o que Vossência rasgou de todos nós - sem nenhuma necessidade - da história, da sensibilidade e da alma da Lingua portuguesa.
Vossência, peço perdão, entra na Historia, sim.
Passa a estar ao nível de um Conde Andeiro. Um Miguel de Vasconcelos, um Alves dos Reis.
Vossência provoca-me um nojo maior. Que sinto em nome de uma pátria que tinha na sua Língua um expoente de justeza, criatividade, elegância, riqueza expressiva e aristocracia latina que lhe foram retiradas. A velha Língua Portuguesa foi ferida de morte por uma iniciativa casteleja, malsã e injustificada. Vossência não sai em glória deste feito. Nem fermoso nem seguro.
Repito: - sinto nojo. Nojo, sim; em nome de todo o universo lusófono que assim sofre tal desfaçatez e improviso. Nojo, em nome da tristeza que os homens de Cultura deste país sentem, ao serem forçados a ver seus filhos e netos a escrever em dialecto de Malaca.
Mas terei de sentir esse nojo o resto da minha vida?
Pedro Barroso, Português, analfabeto
Autor, compositor e poeta, membro da Soc. Port, Autores
ex aluno de Latim do Prof. Vergílio Ferreira
Co autor de obra registada com o Prémio Nobel José Saramago

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

o Zé mal disposto...

caro colega prof. EF

És um sobredotado, ninguem duvida. 
Mas qd se atinge o patamar dourado das extremas fama, fortuna e sucesso, - dizem-mo as minhas ambas formações...- q se pode descompensar de plenitude e arrogancia.
Depois de 50000 exitos, indubitáveis méritos, taças, titulos e campeonatos; depois de um prestigio inegavel e mundialmente reconhecido; depois de te considerares e auto nomeares "special one". Depois do cume da montanha, qt a mim, começaste a tresler de vez em qd. Talvez para dares oportunidade aos mais comuns mortais de, tb eles, se questionarem de tuas preclaras e iluminadas competencias.
Aí puseste a médica na rua e os jogadores do Chelsea deram-te uma lição de tipo: "estás a ver? a n opinião tb conta - aprende a perder, q é para saberes"; entretanto mandaste o historico Schumacher treinar humilhantemente na equipa B do MU...
Em ambos os casos apetece dizer q "não havia necessidade"...
Há sempre uma forma elegante de fazer as coisas.
Agora dizes q o Ronaldo só fez fita no final da Taça dos Campeoes Europeus e q nada daquilo serviu para nada. Ninguem o ouviu. Era só exibicionismo e show off.
Sempre te admirei, Zé. (E a minha mulher ainda mais... por razoes q agora nao interessam nada...  ) Mas desculpa lá, caro, rico, ilustrissimo colega.
Tb nao embandeiro "em arco e aeroporto" com a figura tutelar, intocavel e endeusada do CR7. Acho tudo demais; e obviamente efémero. Mas é um enorme profissional. Um goleador extraordinario. E de menino birrento q foi, tornou-se num capitão de equipa respeitado, interveniente e prestigiado. O q ele fez foi sentir o q todos sentiamos, sobretudo depois do ardiloso e maldoso toque do Payet. O homem estava a sentir toda a adversidade q sofrera; e o titulo de uma sua - e nossa - grande oportunidade de vida colectiva, ali, quase, quase ao alcance das mãos.
Não elabores tanto; nao mordas a lingua e pacifica o teu interior. O teu exterior é magnifico e faz o sonho e encanto das balzaquianas de todo o mundo. E arredores.
Retrata-te e retracta-te. Assim mesmo, obviamente sem Acordo Ortografico.
Tem calma. Pensa. Elabora. Contém a fúria. Contempla. Harmoniza. Convive. Respira. Ouve Chopin. Liszt. Verdi. Brel.
O campeonato da vida é uma maratona de elegancias, ganhos e perdas. Nem sempre sabemos tudo. Nem sempre sabemos engolir o exito dos outros. Nem sempre somos o Himalaia das atenções.
És-nos importante, sabes? Gostamos q ganhes etc etc etc MAS.
Nao percas o importantissimo campeonato da modéstia.
É gratis. Mas no fim da vida, é o êxito maior q poderemos orgulhar-nos de ter conquistado.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

2 parábolas paralelas


1 - num filme anos 70, de Lina Wertmuller - salvo erro, "filme de Amor e anarquia" - um campónio (Giancarlo Gianninni, numa criação excepcional, premio de interpretação no Festival de Cannes) vem para Roma c o radical e altruista proposito de "matar Mussolini".
Puro de alma e habitos tradicionais, é com desgosto que, nos entretantos da trama, se apaixona, no bordel de refugio, por uma das profissionais. Fazendo das tripas coração, enfim...aceita q ela viva a sua vida dissoluta.
Incauto e ingenuo, porém, descobre, logo após, q afinal, ela não é mulher, mas sim um travesti de bastante sucesso. Todos os seus valores sao abalados. Mas o amor apesar de tudo, vence; e continua apaixonado pela pessoa.
Contudo, o destino reserva-lhe uma surpresa ainda maior; afinal, tal paixao nao era mais q o seu proprio irmão, q deixara a terra, ainda criança, em busca de oportunidades na cidade grande.
Tornava-se assim bastante dificil superar tao grandes "discrepâncias e acidentes"
E um longo, fraternal e comovido abraço selou o reencontro; embora, obviamente, convertesse em definitivamente impeditivo tao prolixo e desconforme evoluir amoroso.
2 o homem prometia seriedade e convicção. Com o seu sotaque levemente sibilante de advogado de provincia, subiu escalões de augusta truculência e notoriedade institucional. Saborosas e inesperadas catilinárias invectivaram sucessivamente uma Ministra da Justiça abúlica e incrédula. O q eu me ri algumas vezes c a cara da espantada senhora, perante a desfaçatez impia de tais discursos.
Muita gente se reviu na independencia, destemor e desejo de diferença. O espaço politico, se calhar, até existia, entre forças repetidas e cansadas, outras apenas fechadas e cansativas, outras modernas, pois, mas em busca de... Godot. Uns em perda e sujeição severa à mãe Europa; outros aguardando no taxi, sempre atentos, a melhor oferta de poder, a preço de saldo e alguma influencia.
Neste quadro, o tal projecto se propunha. Mas mº cedo se começou a perceber que, uma vez mais, o q era, não seria bem assim; e o q seria, afinal, não era. Generosas e incautas gentes - não se revendo em nenhuma força existente - deram a pureza do seu acreditar e investiram na novidade para atingirem uma consciência e um ideal. Mas o discurso perdera a frescura, a genuinidade, o rumo arrebatador e a propria matéria.
De tolerancia em tolerância, breve, quase todos se aperceberam do fim à vista. E no fim do 1º acto, os mais atentos logo debandaram. Denunciando q o rei ia nu, ou perto disso. A maior parte dos proprios fundadores acabariam por abandonar o projecto politico sem norte nem futuro.
Aquela casa ficara confusa e de leitura muito tergiversa. E agora, então - independentemente de tudo q venha a suceder - de descalabro em descalabro, face a um sinistro e patente excesso de "bourbon"... ou morre, de morte natural, ou retorna à iniciativa avulsa de q começou, ou colapsa, afogado em tão repulsiva violência e sordidez.
Se algum houve, não é agora, confessemos, q se perderá grande ideário. Ite missa est - Pim.
Conclusão - Raios partam a Lina Wertmuller e as suas tramas esquisitas, sempre ironicamente enviezadas e surdamente pedagogicas...
Lá teremos de agarrar na trouxa... e continuar em busca de Graal.

terça-feira, 3 de maio de 2016

a grande artista

"O país da Joana" 
Raios a partam.

Hoje fez lá outra vez noticiário prime time!
...deve ser muito importante, muito culta, muito extraordinária, o raio da mulher.
Chiça!
Põe colares de bolas gigantes de plástico na torre de Belém e vira noticia; constrói candeeiros gigantes de ob's e vira noticia! 
Faz medalhas de filigrana e vira noticia: faz sapatos de 300 caçarolas e vira noticia. Forra cacilheiros a crochet e... 
Pagam-lhe para isso?! 
O mundo pára para a lata - e o enlatado - de tamanhamente gloriosos feitos! Suponho-os pagos do erário de não sei q espantastico conceptual conceito de Cultura "contemporânea", "performance", enfim, "instalação" - sei lá como possa chamar a tais omnipresenças putativamente geniais! 
Sem graça nenhuma; desculpem, nem entendimento pessoal. Acho q tais coisas servirão apenas para gáudio e proveito próprio e para enorme espanto da criança em que - com a idade e impaciência - me reconverto; o q faz q cada vez mais me apeteça chamar as coisas pelos nomes e dizer q "o rei vai nu" e que tais feitos, todos por junto, não valem pevide! 
Sinceramente, p mim são uma espécie de dadaísmo estéril para imbecis pretensiosos!
Desculpem... Não sou suficientemente iluminado para entender tamanha inteligência e tão ultra protegida criatividade! Culpa minha claro, q nunca tive lóbis para coisa nenhuma!
Ainda se a mulher fosse espantosamente bela e deslumbrante entendia q algumas cúpulas de decisão fossem sensíveis a tamanho encanto.
Não o sendo... Sou eu q sou uma besta e a Sra. q é afinal mesmo dotada p nos assustar e gozar impunemente! 
Ah como recordo o manifesto. Por vezes ainda é preciso repetir energicamente, como então:
- Morra o Dantas, Pim!
A cultura verdadeira residual genuína e pura, as artes e letras pugnando com fome; e o ventre da senhora inchando de notícia e preito imerecido.
Desculpem minha ignorância e - está visto...- profundo mau gosto. 

Mas...Este país tornou-se...o da Joana?!